As emissões de Escopo 3 estão entre os principais desafios da agenda climática corporativa. Diferentemente das emissões geradas diretamente pelas operações, elas estão relacionadas à cadeia de valor da empresa, incluindo fornecedores, transporte, matérias-primas, produtos e serviços adquiridos.
Na prática, isso significa que uma empresa pode estabelecer metas de descarbonização, mas ter dificuldades para avançar se seus fornecedores não conseguirem medir e reduzir suas próprias emissões.
O desafio é ainda maior quando a cadeia envolve pequenas e médias empresas (PMEs). Muitas ainda não possuem inventário de gases de efeito estufa, equipe especializada ou recursos para implementar ferramentas de gestão climática.
Por isso, capacitar fornecedores passou a ser uma etapa importante para reduzir as emissões de Escopo 3 e tornar a descarbonização da cadeia de valor mais efetiva.
O que é Escopo 3?
O Escopo 3 reúne as emissões indiretas de gases de efeito estufa (GEE) associadas às atividades de uma organização que não estão incluídas no Escopo 1 ou no Escopo 2.
De acordo com o GHG Protocol, o Escopo 3 é dividido em 15 categorias, que abrangem atividades como compra de bens e serviços, transporte e distribuição, viagens a negócios, deslocamento de funcionários, uso de produtos vendidos, tratamento de resíduos e investimentos.
Por estarem distribuídas ao longo da cadeia de valor, essas emissões são mais complexas de identificar e controlar.
É justamente nesse ponto que os fornecedores ganham importância.
Por que os fornecedores são importantes para o Escopo 3?
Parte significativa das informações necessárias para calcular as emissões de Escopo 3 está fora das operações diretas da empresa.
Um fabricante, por exemplo, depende de fornecedores de matérias-primas, embalagens, transporte e outros serviços. As emissões relacionadas a essas atividades podem fazer parte da pegada de carbono da organização compradora.
Por isso, a descarbonização da cadeia de fornecedores exige dados cada vez mais precisos.
O problema é que nem todos os fornecedores possuem o mesmo nível de maturidade. Grandes empresas podem contar com equipes de sustentabilidade e sistemas de gestão de dados. Já pequenas empresas podem estar começando a entender como calcular suas emissões.
Essa diferença cria um dos principais gargalos para a gestão do Escopo 3.
Quais são os desafios das PMEs na descarbonização?
Para pequenas e médias empresas, começar uma estratégia climática pode envolver obstáculos financeiros, técnicos e operacionais.
Entre os desafios estão:
- falta de conhecimento sobre inventários de emissões;
- ausência de profissionais especializados;
- dificuldade para organizar dados de consumo;
- falta de ferramentas para calcular emissões;
- custos associados à implementação de novas práticas;
- dificuldade para estabelecer metas de redução.
Isso não significa que essas empresas não possam participar da descarbonização.
O caminho pode começar pela organização das informações que já existem.
Contas de energia, consumo de combustíveis, dados de transporte e informações sobre matérias-primas podem ajudar a construir uma primeira visão sobre as fontes de emissão.
Como capacitar pequenos fornecedores para reduzir o Escopo 3?
A capacitação precisa considerar o nível de maturidade de cada fornecedor.
Uma empresa que nunca calculou suas emissões não necessariamente conseguirá responder a um questionário complexo de Escopo 3. Antes disso, pode ser necessário explicar conceitos básicos, apresentar metodologias e mostrar quais dados devem ser levantados.
Nesse processo, as empresas podem estruturar programas de engajamento de fornecedores, combinando orientação, treinamento e ferramentas de coleta de dados.
A lógica é criar uma evolução gradual.
1. Organizar os dados
O primeiro passo é identificar quais informações o fornecedor já possui.
Dados sobre energia, combustíveis, transporte, produção e aquisição de materiais podem formar a base para o cálculo das emissões.
2. Entender as principais fontes de emissão
Depois da organização dos dados, é possível identificar quais atividades concentram maior impacto climático.
Essa etapa ajuda a direcionar esforços e evita que recursos sejam destinados a atividades de menor relevância.
3. Estruturar o inventário de emissões
Com os dados organizados, o fornecedor pode avançar para a elaboração de um inventário de gases de efeito estufa.
O inventário permite transformar informações operacionais em uma visão mais clara sobre a pegada de carbono da empresa.
4. Criar metas de redução
Com as principais fontes de emissão identificadas, o próximo passo é estabelecer objetivos de redução.
A partir daí, medidas de eficiência energética, mudanças em processos produtivos, logística e uso de materiais podem ser avaliadas de acordo com a realidade de cada negócio.
Como melhorar a coleta de dados do Escopo 3?
A qualidade dos dados é um dos pontos mais importantes para o cálculo das emissões de Escopo 3.
Porém, exigir informações altamente detalhadas de todos os fornecedores pode dificultar a participação de empresas que ainda estão desenvolvendo sua estrutura de gestão climática.
Uma alternativa é trabalhar com diferentes níveis de coleta.
Fornecedores mais maduros podem fornecer dados primários, específicos de suas atividades. Para empresas que ainda não possuem essas informações, dados secundários e estimativas podem ser utilizados, conforme a metodologia adotada.
Com o tempo, a empresa pode substituir estimativas por dados mais específicos.
Esse processo permite melhorar progressivamente a qualidade do inventário de Escopo 3.
Engajamento de fornecedores pode acelerar a descarbonização
A relação entre empresas e fornecedores também pode mudar com a agenda climática.
Em vez de apenas solicitar dados ou estabelecer metas, empresas podem criar mecanismos para apoiar seus parceiros na construção de capacidade técnica.
Treinamentos, materiais educativos, ferramentas simplificadas e modelos de coleta podem reduzir as barreiras para a participação de pequenos fornecedores.
Além disso, integrar as áreas de sustentabilidade, compras e gestão de fornecedores pode ajudar a incorporar critérios climáticos às relações comerciais.
O objetivo não é apenas obter informações para o inventário. É criar condições para que a própria cadeia consiga reduzir suas emissões.
Escopo 3 e a jornada para o Net Zero
A gestão das emissões de Escopo 3 tende a ganhar importância à medida que empresas avançam em suas estratégias de Net Zero.
Isso acontece porque metas climáticas não dependem apenas da redução das emissões operacionais. Também exigem atenção às atividades realizadas ao longo da cadeia de valor.
Nesse cenário, fornecedores passam de fontes de dados a participantes da estratégia de descarbonização.
Para as PMEs, o processo também pode representar uma oportunidade de melhorar a eficiência operacional, organizar informações e se preparar para novas exigências de clientes e mercados.
O futuro da descarbonização passa pela cadeia de fornecedores
Reduzir as emissões de Escopo 3 exige mais do que estabelecer metas corporativas. É necessário ampliar a capacidade de toda a cadeia de valor para medir, compreender e reduzir suas emissões.
Nesse processo, capacitar PMEs e pequenos fornecedores pode ajudar a diminuir um dos principais gargalos da descarbonização: a falta de dados e de estrutura técnica.
A construção de uma cadeia de fornecedores mais preparada para a transição climática depende de colaboração, acesso a conhecimento e evolução gradual.
Assim, o Escopo 3 deixa de ser apenas uma categoria de contabilização de emissões e passa a representar uma frente estratégica para transformar a cadeia de valor e avançar em direção a uma economia de baixo carbono.
Logo, conclui-se que a descarbonização da cadeia de fornecedores depende da capacidade de diferentes empresas medirem e reduzirem suas emissões. Para que o Escopo 3 avance sem criar novos gargalos, grandes organizações precisam considerar também a realidade das PMEs.
Mais do que cobrar dados, capacitar fornecedores pode contribuir para uma cadeia de valor preparada para a transição climática, com maior qualidade de informações e maior capacidade de reduzir emissões ao longo do tempo.

