Além do rótulo: Como o clima afeta o crédito e por que as regras do jogo mudaram para os bancos

Durante anos, a agenda ESG foi tratada por parte do mercado financeiro como um exercício de identificação de ativos sustentáveis ou de diferenciação reputacional. Esse cenário mudou. Em 2026, a discussão deixou de ser sobre classificação e passou a ser sobre gestão de risco financeiro, estabilidade do sistema e conformidade regulatória.

A intensificação dos eventos climáticos extremos tornou evidente que secas, enchentes, ondas de calor e incêndios afetam diretamente a capacidade de pagamento de empresas, a precificação de ativos e a exposição das instituições financeiras. Hoje, o risco climático não representa apenas uma variável ambiental, mas um componente relevante da análise de crédito, do mercado de seguros e da gestão de capital.

Mais do que uma tendência, trata-se de uma transformação estrutural que redefine a forma como bancos, seguradoras e investidores avaliam riscos e tomam decisões.

O clima entrou definitivamente na análise de crédito

Os impactos financeiros das mudanças climáticas já não podem ser considerados eventos isolados. Quando uma região inteira sofre com enchentes ou longos períodos de seca, diferentes empresas são afetadas simultaneamente, elevando a probabilidade de inadimplência em diversos setores ao mesmo tempo.

Esse fenômeno é conhecido como risco correlacionado e representa um dos principais desafios para as instituições financeiras.

Em abril de 2026, um estudo divulgado pelo Banco Central revelou um dado que chamou a atenção do mercado: cerca de 3% da carteira de crédito empresarial brasileira está localizada em áreas onde o dano esperado por inundações é igual ou superior a 10%. Embora o percentual pareça pequeno à primeira vista, a preocupação está na concentração geográfica dessas operações e no potencial de perdas simultâneas em determinados territórios.

Na prática, isso significa que um único evento climático extremo pode comprometer diversos contratos de crédito ao mesmo tempo, afetando indicadores de risco, liquidez e solvência das instituições.

Essa nova realidade exige modelos capazes de incorporar variáveis climáticas às análises tradicionais de risco financeiro.

2026 marcou uma mudança regulatória importante

A evolução do cenário regulatório brasileiro evidencia que os riscos climáticos passaram a ocupar posição estratégica na supervisão financeira.

Enquanto a Resolução CVM 244, publicada em 2026, tornou voluntária a adoção dos padrões internacionais IFRS S1 e IFRS S2 para companhias abertas — estabelecendo apenas a obrigatoriedade de justificar eventual não adoção a partir de 2027 — o mesmo não ocorreu para instituições financeiras.

Para bancos de grande porte, a lógica é diferente.

A Resolução CMN nº 5.185 determina que essas instituições incorporem riscos sociais, ambientais e climáticos em seus processos de gestão, avaliação e precificação das operações de crédito. Da mesma forma, a Circular Susep nº 666 exige que seguradoras integrem esses fatores aos processos de subscrição e gerenciamento de riscos.

O resultado é uma clara assimetria regulatória.

Enquanto parte das empresas ainda possui flexibilidade na divulgação das informações relacionadas às normas internacionais de sustentabilidade, bancos e seguradoras já precisam utilizar essas informações na tomada de decisão cotidiana.

Na prática, isso significa que a qualidade das informações climáticas produzidas pelas empresas influencia diretamente sua relação com o sistema financeiro.

ESG deixa de ser reputação e passa a influenciar acesso ao capital

Essa mudança regulatória altera também a dinâmica entre empresas e financiadores.

Instituições financeiras precisam demonstrar aos reguladores que compreendem a exposição de suas carteiras aos riscos climáticos. Para isso, dependem de informações cada vez mais consistentes fornecidas por seus clientes corporativos.

Empresas que apresentam dados estruturados sobre riscos físicos, riscos de transição, governança climática e estratégias de adaptação tendem a reduzir incertezas durante análises de crédito.

Por outro lado, organizações que não conseguem demonstrar maturidade na gestão desses fatores podem enfrentar maior dificuldade para acessar recursos financeiros, além de sofrer impactos na precificação de empréstimos, seguros e investimentos.

Nesse contexto, transparência deixa de ser apenas uma prática de comunicação corporativa e passa a integrar a lógica de avaliação financeira.

O desafio está na qualidade das informações

Outro ponto crítico é que os riscos climáticos possuem características diferentes dos riscos financeiros tradicionais.

Eles envolvem projeções de longo prazo, diferentes cenários, elevada incerteza e dependência de dados geográficos, científicos e econômicos.

Por isso, cresce a necessidade de integrar informações provenientes de diversas áreas da empresa, como sustentabilidade, gestão de riscos, operações, financeiro e compliance.

Essa integração é justamente um dos pilares dos padrões IFRS S1 e IFRS S2, que propõem uma visão conectada entre sustentabilidade, estratégia empresarial e desempenho financeiro.

Ainda que a adoção seja facultativa para parte das empresas brasileiras em 2026, a tendência internacional aponta para um avanço contínuo da padronização das divulgações climáticas.

O risco climático tornou-se um risco financeiro

O mercado caminha para um cenário em que eventos climáticos extremos deixam de ser considerados exceções e passam a integrar modelos permanentes de gestão de risco.

Nesse contexto, bancos e seguradoras assumem papel central ao incorporar essas variáveis em suas decisões, influenciando o custo do capital, a concessão de crédito e a cobertura de seguros.

Para as empresas, isso significa que compreender seus riscos climáticos deixou de ser apenas uma iniciativa ligada à sustentabilidade. Tornou-se uma necessidade estratégica para manter a competitividade, fortalecer a relação com investidores e atender às novas exigências do sistema financeiro.

Mais do que uma mudança regulatória, trata-se de uma mudança de paradigma: o clima passou a fazer parte da linguagem das finanças.