Quando o assunto é inclusão de pessoas com deficiência, muitas empresas ainda limitam sua atuação ao cumprimento da legislação. Mas essa visão reduz uma agenda que, cada vez mais, se mostra estratégica para inovação, competitividade e crescimento dos negócios.
Em entrevista à Beon, consultoria de sustentabilidade, a socióloga, autora do conceito “Resgate Inclusivo” e especialista em diversidade, equidade e inclusão Marta Gil destaca que a baixa participação de pessoas com deficiência no mercado de trabalho não está relacionada à falta de qualificação, mas a barreiras estruturais e culturais que persistem dentro das organizações. Segundo ela, o capacitismo ainda influencia processos seletivos, decisões de carreira e até a forma como profissionais são recebidos e avaliados nas empresas.
Para Marta, o desafio vai além da contratação. É preciso garantir oportunidades de desenvolvimento, progressão de carreira e ambientes preparados para receber diferentes perfis. Ao mesmo tempo, a acessibilidade deve ser encarada também sob a perspectiva do consumidor. Pessoas com deficiência consomem, influenciam decisões de compra e movimentam mercados, mas ainda encontram barreiras em produtos, serviços, canais digitais e experiências de atendimento.
Essa reflexão dialoga com discussões recentes promovidas pela Beon sobre acessibilidade digital. Dados do Movimento Web para Todos mostram que menos de 3% dos sites brasileiros são considerados acessíveis e apenas 18% das empresas direcionam esforços para a inclusão de consumidores, e não apenas de colaboradores.
O resultado é um paradoxo: enquanto organizações buscam ampliar mercados, fortalecer reputação e criar experiências mais relevantes, continuam deixando de atender milhões de pessoas. Como reforça Marta, ao excluir esse público, as empresas não apenas deixam de garantir direitos, mas também abrem mão de oportunidades de negócio, inovação e conexão com uma sociedade cada vez mais diversa.
A pergunta que fica para as organizações não é se vale a pena investir em inclusão, mas quanto custa continuar ignorando esse público. Em um cenário de transformação demográfica, envelhecimento da população e busca por novos mercados, acessibilidade e inclusão deixam de ser diferenciais para se tornarem fatores de competitividade.

